Caio Fernando Abreu
(…)
Gosto de dizer tenho um dragão que mora comigo, embora não seja verdade. Como eu dizia, um dragão jamais pertence a, nem mora com alguém. Seja uma pessoa banal igual a mim, seja unicórnio, salamandra, harpia, elfo, hamadríade, sereia ou ogro. Duvido que um dragão conviva melhor com esses seres mitológicos, mais semelhantes à natureza dele, do que com um ser humano. Não que sejam insociáveis. Pelo contrário, às vezes um dragão sabe ser gentil e submisso como uma gueixa. Apenas, eles não dividem seus hábitos.
(…)
Eu profundo e outros eus…
Mario Bellatin criticou a inspiração literária na própria vida do autor – mas o autor Cristóvão Tezza escreveu um livro muito bem sucedido cujo tema é justamente sua expriência pessoal na relação com seu filho, portador de síndrome de down.
Atualmente os leitores querem saber muito sobre o universo pessoal dos autores. Querem invandir o quarto escuro onde durante tanto tempo muitos escritores se esconderam…
E você acha que a experiência pessoal é válida como motor da literatura?
Então seu Chico, escrever é uma chatice?
Cada dia que passa esse homem me surpreende mais e mais com suas palavras. Eu já fui fã do Chico (cantor) – o Chico (escritor) ainda não me conquistou e nem me disse absolutamente nada e olha que eu li “Leite Derramado” de sua autoria…
Mas ele abriu a boca e disse lá pelas tantas em plena FLIP: “Eu escrevo muito devagar. Escrever é uma chatice. Gosto mais de ler do que de escrever”
E eu juro que tentei ver o outro lado disso tudo: “Todo dia, antes de começar a escrever, eu lia o meu livro desde o começo, de maneira que ele ficava todo na minha mão”.
Cá entre nós, não é isso que nós escritores devemos fazer: ler o que escrevemos e ler mais uma vez, novamente até a exaustão? É claro que sim…
Enfim, hoje eu resolvi deixar o Chico (escritor/cantor = decepção) em paz. Será que isso vai dar certo?
Perguntas que nem sempre tem respostas…
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É possível transformar o Brasil em um país de leitores? O que entendemos por um país de leitores e o que esperamos dele? Como fazer para que as ações existentes de promoção da leitura possam convergir para uma atuação conjunta na construção de um país leitor?
Você tem uma resposta pra isso?
Conheça o projeto Brasil Literário
acesse: www.brasilliterario.org.br
E a FLIP foi assim…
As brincadeiras começaram nas muitas mesas de bar – de repente estava no Twitter… Sabe bem o que isso significa, não sabe? Bem, virou provocação, ganhou espaço nos jornais e claro que rendeu muito papo aqui em Paraty: “não vai demorar para acontecer uma Flip sem literatura”.
Mas cá entre nós: nunca tinha se visto uma variedade de temas e de convidados das mais diferentes áreas como desta vez: cantor, biólogo, jornalista, artista plástica, e autores de quadrinhos entre os principais destaques da Flip.
Mas o homenageado da FLIP 2009 pelo menos era do ramo: “Machado de Assis”… Que foi tema da conferência de abertura, ministrada por Davi Arrigucci Jr., que escreveu ensaios importantes sobre o escritor.
E na sexta-feira, Heitor Ferraz, Eucanaã Ferraz e Angélica Freitas (representantes da nova geração de poetas brasileiros) conversaram sobre por que ainda é importante ler Bandeira.
Arte de Amar
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
Agora, cá entre nós: depois de ler Bandeira, nem é preciso se dar ao trabalho de dizer o quão importante é ler Bandeira, não é mesmo?
Oráculos de Cabeceiras
Esse poema ficou em mim há pouco e não saiu mais…
As cidades doem, estão dentro de nós
mantidas por laços de fumo e desejo,
têm muros úteis e portas escondidas
que dão para a noite, como certos livros,
e há amores que vivem a horas tardiase outros que se cortam no fio da trama,
queimam paus de incenso para abrir
caminhos, remover obstáculos, há curvas
e arcos, ecos desolados, quartos de ninguém.
As cidades cansam, estão nos nossos dias,têm mil janelas de azul virtual
que nunca sossegam e nunca terminam
e há corpos que ensinam a temer a morte,
sombras que circulam nas redes do escuro
e homens que ferem para não chorar.Rui Pires Cabral
Rui Pires Cabral nasceu em Outubro de 1967 em Vila Real. Publicou em 1985 um livro de contos mas foi através da poesia que a sua escrita atingiu um excelente grau de maturidade.
A toada mais abstracta do seu primeiro livro deu lugar nos mais recentes, a uma poesia metonímica e figurativa quantas vezes surpreendente, onde as viagens, as cidades e a música são pretexto para uma escrita prosódica muito nítida. Dos poemas dele que me fascinam: "Alexandra Road" e "Shirley Ann Eales" merecem destaque.
OBRA POÉTICA
Geografia das Estações, edição de autor, Vila Real, 1994
A Super-Realidade, edição do autor, Vila Real, 1995
Música Antológica & Onze Cidades, Presença, Lisboa, 1997
Praças e Quintais, Averno, Lisboa, 2003
Longe da Aldeia, Averno, Lisboa, 2005
O universo dela…
Eva Peixoto…
Ela é uma mulher que vive cercada de superficialidades. Passa boa parte de sua vida ao telefone… Vai a festas muitas e nunca fala da filha caçula, a quem culpa por todas as suas desgraças pessoais. Mas vê na filha mais velha uma continuidade de si mesma que deu certo, até que ela decidi por fim ao seu casamento…
Todos os dias, se levanta, escova os dentes, respira fundo e senta-se a mesa para o café da manhã, ao lado do marido que ela tanto despreza. Olha para as velhas expressões dele e bem lá no fundo ela sabe que são exatamente as mesmas de “mil” anos atrás…
Há anos atrás conheceu o homem de seus sonhos, mas já era casada com o senhor promissor que só queria uma esposa: a mulher que iria dar a ele a estabilidade necessária para conquistar as coisas que ele tanto queria. A primeira filha não o satisfez e a segunda, talvez nem fosse dele. Talvez (apenas talvez) fosse do outro – que desapareceu numa esquina qualquer quando soube da possibilidade do assombro… Mas a segunda filha era a grande paixão daquele homem. Ironia do destino. Ela nunca teve coragem de encarar a verdade, preferiu apenas odiá-la, culpá-la…
Nunca mais foi feliz verdadeiramente, mas ao menos era alguém e tinha seu nome estampado nas principais páginas dos jornais mais importantes da cidade. Gastava o quanto quisesse. Tinha amigas importantes e recebia como poucas… Seu nome era sinônimo de bom gosto!
Eva. Sessenta e três anos…
na maioria das vezes, não tem absolutamente nada para dizer. Ela é mãe, mas quase nunca se lembra disso. Ela é mulher. Insatisfeita. Mas não se queixa…
Ela continua a esperar pelo fracasso da filha caçula, que é linda e segue sendo menina, mulher, artista plástica, famosa, consagrada e essa parece ser essa a sua única dor! E é justamente essa que ela não consegue suportar… Tudo mais são pequenos detalhes que ela ignora!
Assim é a mãe da Deborah…
Ps. Admiro muito a atriz Eva Wilma e um de seus melhores trabalhos na televisão foi justamente uma vilã. Embora a mãe da Deborah não seja exatamente uma vilã e sim uma pessoa amarga – é a imagem da atriz vivendo uma vilã em uma novela da Rede Globo que me vem a mente quando penso nessa personagem.
Cartas a um jovem poeta…
Eu sempre gostei de Rilke e como sempre recebo dúzias de emails perguntando sobre como eu me descobri poeta, escritora e coisa e tal – achei que esse pequeno trecho de uma das cartas escritas por Rilke serviria como luz no fim do túnel:
Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever, examine se extende suas raízes pelos recantos de sua alma, confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever?
Isto acima de tudo, pergunte a si mesmo na hora mais trânquila de sua noite “sou mesmo forçado a escrever?”
Escave dentro de si uma proposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar aquela pergunta severa por um forte ou simples “sou” construa sua vida de acordo com essa necessidade.
Rainer Maria Rilke
Paris, 17 de fevereiro de 1903
Cartas a um jovem poeta
Emily por ela mesma…
Museu Emily Dickinson – antiga casa da poeta
Durante anos Emily Dickinson trocou correspondência com Thomas Higginson que insistia paraque ela enviasse a ele uma fotografia sua, coisa que ela nunca fez. Mas por outro lado, ela enviou uma descrição breve em uma das cartas, que dizia:
“Sou pequena como um passarinho… Meu cabelo é arisco como a semente da castanheira e meus olhos são como o xerez na taça deixada pelo conviva. Será que isso bastaria?”
O Extremo Oriente…
Antes de fazer uma pausa no universo dos blogs, eu estava postando no Acqua a novela “O Extremo Oriente” a qual finalizei e editei durante o meu “recesso”…
Pois bem, para aqueles que desejarem saber o que aconteceu com a jovem Zora Lins, basta seguir a trilha…
Tarde da noite…
Em silêncio, esculpindo personagens…
Estou brigando com “George Petrasco” – o grande amor de Deborah Peixoto de quem falei num outro post dias desses…
Se por um lado ela se apresenta a mim com todas as suas cores – ele pra mim ainda é um grande mistério. É tão fechado em si mesmo que compreendê-lo é uma das tarefas mais ingratas dessa nova história que sigo “construíndo” por aqui… Ele tem muitos fantasmas, culpas, fracassos pessoais e uma mágoa imensa pela pessoa que acima de tudo, ele ama. Difícil isso…
E a @sarah perguntou-me por email como se constrói personagens porque ela deseja ser escritora!
Bem Sarah, comigo os personagens surgem sempre depois. Primeiro a história começa a se desenhar em minha mente. É como assistir a um filme, um seriado na televisão. Eu fico lá, vendo tudo acontecer. Só depois os personagens se aproximam e eu começo a identificá-los… Alguns são simples, outros nem tanto… Porque você precisa conhecê-los, desvendá-los e na maioria das vezes entendê-los sem julgar seus atos… É um lento processo, mas é muito gratificante quando você consegue transpor todo esse estratagema…
Definitivamente…
Eu queria ter escrito isso:
"É uma questão de linguagem. A linguagem é uma coisa que me seduziu. A linguagem é uma coisa que me perverteu. A linguagem é uma coisa que me formou. A linguagem é uma coisa que me deformou. É por isso que sou um poeta, provavelmente porque sou muito sensível à linguagem- correcta ou não, faço de conta que não vi. Ignoro e desprezo a gramática, que está às portas da morte, mas sou um grande leitor de dicionários e, se a minha ortografia é nula, certamente é porque sou muito atento à pronúncia, essa idiossincrasia da linguagem viva.
O importante não é o verbo, mas a frase, uma modulação.
Ouça o canto dos pássaros!"
Blaise Cendrars, pseudônimo de Frédéric Louis Sauser, novelista e poeta suíço que visitou o Brasil na década de 20 do século XX, influenciando diversos artistas e escritores do modernismo brasileiro.
Poucos sabem muito dele e muitos o ignoram, apesar de ter colaborado na revista “Portugal Futurista”, e apesar da tradução de algumas das suas mais importantes obras. Sem dúvida alguma um dos poetas mais cosmopolitas do nosso tempo
Tudo bem, mas não fui eu quem escreveu, mas tomei pra mim quando li, como se tivesse sido eu…
E o que vem depois?
Pra mim ele era apenas um homem – eu nunca enxerguei o mito que a maioria das pessoas enxergou. Eu soube de suas músicas, de sua vida, de seus erros e enganos, de seus equivocos… Soube bem mais do que eu gostaria de saber.
Ouvi algumas de suas músicas e algumas delas até me conquistaram e mesmo assim ele era apenas um homem pra mim. Um homem com uma curiosa história que fazia dele mais um personagem que propriamente um ser real…
Há pouco, presenciei uma quantidade enorme de informações desencontradas sobre a possível morte e fiquei me perguntando. Quem morreu realmente? O homem ou o mito? E diante da certeza absoluta que foi apenas o homem que morreu, me perguntei “e o que vem depois?”
Sim, porque os fãs do mito ficarão tristes e o mundo durante algum tempo irá falar apenas disso: da lenda, do suceso, da carreira que teve seu auge nos lendários anos oitenta. Mas isso tudo não é o homem, é apenas o mito que será eterno como bem disse @sagepoesie no twitter. E talvez o homem seja esquecido porque na verdade nunca fora lembrado…
Coisas do Manoel Carlos…
Sim, fiquei sabendo na tarde de hoje (enquanto lia o roteiro de uma novela antiga) que a próxima novela global será escrita por Manoel Carlos e aparentemente terá o nome de “viver a vida”…
Claro que teremos mais uma Helena nessa história e pelo que tudo indica teremos o melhor estilo Leblon de volta as telinhas da Globo…
Eu não assisti a todas as novelas do Manoel Carlos, mas li a respeito recentemente e acabei descobrindo uma variedades de Helenas (vividas por Regina Duarte, Vera Fischer, Cristiane Torloni, Maitê Proença e Lilian Lemmertz). E pelo que eu soube, a nova Helena será vivida por Thaís Araújo e já estão todos comentando o fato da atriz ser negra e ser a primeira Helena negra e coisa e tal…
O que me chamou a atenção foi a idade da atriz e não a cor. Porque a sensação que eu tive ao ler sobre tantas Helenas é que a maioria delas eram mulheres seguras de si, a bordo de seus quarenta e poucos anos, com filhos, ex-marido e todas as experiências que a idade permite… Mas, aparentemente agora será uma Helena bem jovem, ex-modelo, casada com um homem bem mais velho que será interpretado por José Mayer… No mínimo curiosa essa mudança repentina!
Uma outra coisa muito obvia nas novelas do Manoel Carlos é o elenco. Geralmente são sempre os mesmos, salvo raríssimas excessões…
Bem, você se lembra de alguma Helena de Manoel Carlos? Eu me lembro apenas da vivida por Maitê Proença em “Felicidade” que eu assisti no Vale a Pena Ver de novo graças a uma cirurgia feita no joelho que me deixava deitada boa parte do tempo e televisão era uma espécie de melhor amiga…
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